 disse ao anfitrião:
- Leve-me à sua cripta, Eddard. Quero apresentar os meus
respeitos.
Ned o adorou por isso, por se lembrar ainda dela, depois de
tantos anos. Gritou por uma lanterna. Não foram necessárias
mais palavras. A rainha começara a protestar. Que tinham
viajado desde a madrugada, que estavam todos cansados e
com frio, que decerto deveriam descansar primeiro. Que os
mortos podiam esperar. Não disse mais que isso; Robert
olhou-a, o irmão gêmeo Jaime pegou-lhe calmamente no
braço e ela não disse mais nada.
Desceram juntos para a cripta, Ned e seu rei, que quase não
reconhecia. Os degraus de pedra em espiral eram estreitos.
Ned seguiu à frente com a lanterna.
- Já começava a pensar que nunca mais chegaríamos a
Winterfell - queixou-se Robert enquanto desciam. - No Sul,
do modo como falam dos meus Sete Reinos, um homem se
esquece de que a sua parte é tão grande quanto as outras seis
juntas.
- Espero que tenha apreciado a viagem, Vossa Graça. Robert
resfolegou.
- Lodaçais, florestas e campos, e quase sem uma estalagem
decente a norte do Gargalo. Nunca vi um vazio tão vasto.
Onde estão todas as suas gentes?
- Provavelmente estavam muito acanhadas para sair -
brincou Ned. Sentia o frio que subia as escadas, a respiração
gelada vinda das profundezas da terra. - Os reis são uma visão
rara no Norte.
Robert resfolegou.
- O mais certo é que estivessem escondidas debaixo da neve.
Neve, Ned! - o rei pôs a mão na parede para se manter firme
enquanto descia.
- As neves do fim do verão são bastante comuns - disse Ned. -
Espero que não lhe tenham causado problemas. São
geralmente suaves.
- Que os Outros carreguem as suas neves suaves - praguejou
Robert. - Como será este lugar no inverno? Estremeço só de
pensar.
- Os invernos são duros - admitiu Ned. - Mas os Stark os
suportarão. Sempre os suportamos.
- Tem de vir até o Sul - disse Robert. - Precisa experimentar o
verão antes que ele fuja. Em Jardim de Cima há campos de
rosas douradas que se estendem até perder de vista. Os frutos
estão tão maduros que explodem na boca: melões, pêssegos,
ameixas-de-fogo, nunca saboreou tamanha doçura. Verá, eu
trouxe algumas. Mesmo em Ponta Tempestade, com aquele
bom vento da baía, os dias são tão quentes que quase não
conseguimos nos mexer. E precisa ver as vilas, Ned! Flores
por toda parte, os mercados a rebentar de comida, os vinhos
estivais tão bons e baratos que podemos nos embebedar só de
respirar o ar. Toda a gente é gorda, bêbada e rica - soltou uma
gargalhada e deu uma palmada no amplo estômago. - E as
moças, Ned! - exclamou com os olhos faiscando. - Juro, as
mulheres perdem toda a modéstia ao calor. Nadam nuas no
rio, mesmo por baixo do castelo. Até nas ruas está calor
demais para lã ou peles, e elas andam por aí com aqueles
vestidos curtos de seda, se tiverem prata, ou algodão, se não
tiverem, mas é tudo igual quando começam a suar e o tecido
lhes adere à pele, é como se andassem nuas - o rei riu, feliz.
Robert Baratheon sempre fora um homem de enormes
apetites, um homem que sabia como conquistar seus prazeres.
Essa não era uma acusação que alguém pudesse deixar à
porta de Eddard Stark. No entanto, Ned não podia deixar de
notar que esses prazeres estavam cobrando seu preço do rei.
Robert respirava pesadamente quando chegaram ao fundo
das escadas, e com a cara vermelha à luz da lanterna quando
penetraram na escuridão da cripta.
- Vossa Graça - disse Ned respeitosamente. Moveu a lanterna
num largo semicírculo. As sombras moveram-se e
balançaram. A vacilante luz tocou as pedras do chão e roçou
numa longa procissão de pilares de granito que marchavam
em frente a eles, dois a dois, na direção das trevas. Entre os
pilares sentavam-se os mortos nos seus tronos de pedra
apoiados nas paredes, de costas voltadas para os sepulcros
que continham seus restos mortais. - Ela está lá ao fundo,
com o Pai e Brandon.
Indicou o caminho por entre os pilares e Robert seguiu-o sem
uma palavra, estremecendo com o frio subterrâneo. Ali fazia
sempre frio. Seus passos soavam nas pedras e ecoavam na
abóbada que se erguia sobre suas cabeças enquanto
caminhavam por entre os mortos da Casa Stark. Os Senhores
de Winterfell viam-nos passar. Suas imagens tinham sido
esculpidas nas pedras que selavam as tumbas. Sentavam-se
em longas filas, olhos cegos virados para a escuridão eterna,
enquanto grandes lobos gigantes de pedra se aninhavam
junto aos seus pés. As sombras móveis faziam com que as
figuras de pedra parecessem mover-se quando os vivos
passavam por elas.
Seguindo um costume antigo, uma espada de ferro tinha sido
colocada sobre o colo de todos os que tinham sido Senhores de
Winterfell, a fim de manter os espíritos vingativos em suas
criptas. A mais antiga já há muito enferrujara até a
inexistência, deixando apenas algumas manchas vermelhas
onde o metal tocara na pedra. Ned perguntou a si próprio se
isso significava que aqueles espíritos estavam agora livres
para passear pelo castelo. Esperava que não. Os primeiros
Senhores de Winterfell tinham sido 